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Genes e cromossomas

A genética é uma ciência fascinante e, não querendo transformar o que aqui se escrever em lei e fazer com que todos nos achem especialista de algo que só agora começámos a descobrir, vamos usar este site também para revelar curiosidades sobre os bosques da noruega em particular e o mundo felino. É que às vezes escrever também nos ajuda a compreender, e é disso que se trata aqui.

- Cada gato tem menos quatro pares de cromossomas do que uma pessoa: 19;

- Cada par de cromossomas junta um transmitido pela mãe e outro pelo pai, que se encontram quando o espermatozóide fecunda o óvulo;

- O sexo é determinado por um par de cromossomas. Há duas variantes possíveis, sendo que X+X dá fêmea e X+Y macho;

- Cada cromossoma carrega determinados genes, estabelecendo-se posteriormente, no ovo, regras de dominância entre eles;

- Cada gene pode ter várias “variantes”, que no fundo são mutações do mesmo. Por exemplo, o padrão de um gato agouti pode mackerel ou blotched (mas também ticked ou spotted, que analisaremos mais tarde). O blotched (ou classic tabby) é um alelo, ou seja uma mutação, do gene mackerel dominante.

Os genes do desenho (padrão)

Dois dos genes mais importantes para o fenótipo (aspecto visual) de um bosque da noruega são os do desenho (padrão) e da cor, tendo como ponto de partida de que todas as características de um gatinho são herdadas dos pais: o comprimento do corpo, a cor dos olhos, o tamanho da cauda, a resistência dos ossos, o tipo de pêlo e por aí fora.

No que diz respeito ao padrão há apenas dois genes: o agouti (tabby) e a sua forma mutante (alelo) o não agouti (cor sólida).

Agouti – o primeiro gene que entra em campo é o agouti, que determina se o gatinho tem ou não um padrão no pêlo. A presença do gene dominante agouti (ou seja, precisa apenas da presença de um gene no par de genes desse loci que existe no ovo - egg cell - para se manifestar) determina que o gatinho tem um desenho no manto, vulgarmente e por vezes erradamente designado por tabby. O tipo de desenho é determinado pela presença de outros genes e respectivos alelos: mackerel ou blotched (classic tabby); ticked ou não ticked; e spotted ou não spotted.

Mais uma vez, entra-se na cadeia de dominância: o mackerel é dominante sobre o blotched (recessivo).

NOTA: Todos os gatos têm um padrão, mesmo os sólidos, que é mascarado (masked) pela presença do gene recessivo (necessita dois genes iguais desse par no “ovo”) não agouti.

Não agouti – este gene é recessivo e significa que o “ovo” tem de carregar um gene não agouti do pai e um outro da mãe para que se manifeste no fenótipo. Só assim o gatinho será sólido, ou, mais correcto cientificamente, não agouti. Isto, apesar de, mais uma vez, se sublinhar que todos os gatos têm padrão por baixo.

Se muitas vezes não há grande dificuldade em encontrar diferenças entre um gato agouti (tabby) e outro não agouti (sólido), esta aumenta consideravelmente quando se entra no campo dos vermelhos.

É vulgar ouvir-se dizer que todos os vermelhos são tabby, mas isso não é verdade. De facto, há gatos vermelhos não agouti e têm praticamente as mesmas características que os agouti. Existem pormenores que nos fazem decidir sobre essa parte específica do fenótipo (e genótipo) de um gato.

Reparem nas duas fotos aqui ao lado. O Angkor e o Ashanti são irmãos e filhos do Fontemouro (um preto tabby) e da Indra (uma tartaruga azul sólida). A ninhada dá-nos umas pistas sobre parte do genótipo do pai, que se verifica que é portador do gene não agouti (Aa): nasceram a Alhambra (tartaruga preta "sólida" com branco), Ash (preta "sólida" bicolor com branco) e Adad (preto "sólido").

Portanto, há de facto a possibilidade genética de um dos dois ser sólido. E esse gatinho é o Angkor. Como sabemos? Não é fácil, mas a ciência dá-nos algumas pistas: um gato agouti (tabby) tem as zonas do lábio superior e inferior (onde nascem os bigodes) mais esbranquiçadas, a orla interior das orelhas mais clara e o contorno dos olhos (eyeliner) mais marcados. Um sólido, pelo contrário, mostra um lábio superior e inferior de cor mais próxima da do resto do pêlo, o mesmo se passa com a orla das orelhas e o eyeliner não é tão evidente. Nem todos estes sinais aparecem ao mesmo tempo e nem sempre a fronteira é tão marcada.

NOTA: O Angkor (NFO d) é ainda portador de mackerel e de blotched, porque no seu genótipo podemos encontrar os genes Mcmc (mackerel dominante, portador de blotched, em que o primeiro vem da mãe, é o que domina e o que mostra visualmente e o segundo vem do pai, que é blotched e passa sempre um dos dois genes recessivos aos filhos). Por sua vez o Ashanti (NFO d 09 22) é blotched homozigótico (mcmc), porque o mostra no fenótipo e se trata de um gene recessivo, e ainda portador do gene não agouti porque é filho de uma tartaruga sólida (Aa). Ambos são portadores de diluição (Dd) porque são filhos da uma gata diluída, um tema que será mais explorado no ponto seguinte.

Indra/Fontemouro

Amc

amc

aMc

AaMcmc

aaMcmc

amc

Aamcmc

aamcmc

Legenda: AaMcmc = agouti mackerel portador de blotched e não agouti; aaMcmc = não agouti portador de mackerel e blotched; Aamcmc = agouti blotched portador de não agouti.

Talvez seja altura de recapitular um pouco. Ou explicar de outra forma:

- Na altura da fecundação, cada locus de determinado cromossoma recebe um gene da mãe e outro do pai;

- Os loci (plural de locus) são locais onde se juntam um determinado gene e/ou o seu alelo;

- O locus "a" pode conter dois genes agouti (sempre dois, um do pai e outro da mãe), um gene agouti e a sua mutação (alelo) não agouti ou dois genes mutados não agouti. No primeiro e terceiro casos não há dúvidas. O primeiro seria um gato agouti (AA = tabby) enquanto o terceiro seria um gato não agouti (aa = sólido). No segundo caso, há um gene e a sua mutação, por isso era necessário existir um dominante sobre o outro e o dominante é o agouti (A). Assim, sabemos que o segundo gato seria também agouti mas portador de um gene não agouti (Aa). Este gato Aa será importante para explicar mais tarde porque podem nascer gatos sólidos de dois gatos tabby, ou seja com o gene agouti dominante.

- Há muitos mais loci que determinam a composição de um gato. Por exemplo, sabemos que o primeiro e segundo gatos serão agouti, mas não conhecemos o padrão. Porque o tempo nos disse que os padrões spotted e ticked são de outro campeonato, ou seja, outro locus, vamos olhar primeiro para o loci Mc. A experiência que chega até nós de outros criadores diz-nos que o mackerel é dominante sobre o blotched (também chamado de classic tabby). Assim, temos o gene mackerel (Mc) e o seu alelo mutado, o blotched (mc). Novamente, no locus Mc podemos ter um gato McMc (dois genes mackerel, logo mackerel; chama-se homozigótico a um gato que tem dois genes iguais em determinado locus), outro Mcmc (um gene mackerel dominante e outro blotched não dominante, daí recessivo; ou seja, temos outro gato mackerel mas portador de blotched) e um outro mcmc (dois genes blotched não dominantes, logo homozigótico recessivo; e como tal um gato blotched).

- O genótipo pode dizer-nos que um determinado gato é mackerel ou blotched, mas isso pode ainda não se manifestar totalmente no fenótipo. Porquê? Porque a genética não é simples, e há loci que se sobrepõem uns aos outros. Na maior parte dos gatos, o que nos diz o locus "Mc" traduz-se no gato que vemos, mas em outros não é aí que encontramos a resposta às nossas perguntas. Ou seja, um gato pode ser ticked ou spotted também, e esses genes estão noutro loci, não são alelos do mackerel. No locus "Sp" encontramos o spotted (Sp) e o seu alelo recessivo não spotted (sp), e no locus "T" o ticked (T) e o alelo recessivo não ticked (t). Pensem nisto como uma composição em camadas, com ticked no topo, depois spotted, por cima de mackerel ou blotched. Assim, se um gato for TT ou Tt será ticked no fenótipo. Se for tt, ou seja não ticked, poderá ser spotted (SpSp ou Spsp). Se for tt e spsp (ou seja não ticked e não spotted) será então mackerel ou blotched.

- Na criação o que está escondido está por detrás dos genes dominantes, como, por exemplo, o agouti (A), o D (não diluído), o I (silver) entre muitos outros. Ou seja, é possível ter gatinhos não silver de dois pais silver, mas não é possível ter um gatinho silver de dois pais não silver. É possível ter gatinhos não agouti (sólidos) de dois gatos agouti (tabby), mas não é possível ter gatos agouti de dois gatos não agouti. É possível ter ainda gatinhos diluídos de dois gatos não diluídos, mas não é possível ter gatinhos não diluídos de dois gatos diluídos. Complicado?

Pai e mãe não silver (o silver é dominante e o não silver recessivo, logo ambos ii):

Não silver/não silver

i

i

i

ii

ii

i

ii

ii

Resultado: 100 por cento de gatinhos não silver

 

Pai e mãe silver (o silver é dominante e o não silver recessivo, logo podem ser ambos II ou Ii, ou ainda um deles II e outro Ii):

Silver homozigótico/silver homozigótico

I

I

I

II

II

I

II

II

Resultado: 100 por cento de gatinhos silver

Silver homozigótico/silver heterozigótico

I

i

I

II

Ii

I

II

Ii

Resultado: 100 por cento de gatinhos silver, mas 50% homozigótico e outros 50% heterozigótico, logo portadores de não silver

Silver heterozigótico/silver heterozigótico

I

i

I

II

Ii

i

Ii

ii

Resultado: 75 por cento de gatinhos silver e 25% de gatinhos não silver. Dos 75% de silver dois terços são heterozigóticos, logo portadores de não silver

 

Os genes da cor

Todos os gatos têm dois pigmentos primários: o preto e o vermelho. Apenas as fêmeas podem ter estes dois pigmentos (não confundir com cores) ao mesmo tempo, e quando isso acontece são chamadas tartarugas.

O branco aparece num gato por acção do gene piebald, também conhecido por white spotting (não confundir com o spotted do padrão). Quando um gato é todo branco isso resulta da acção de um outro gene dominante que não o spotting.

Diluição
: o preto e o vermelho podem ser alvo da diluição mediante a acção de um gene recessivo (necessita da existência dos dois genes do par) e transformam-se em azul (ver segunda foto: Shadow Eyes D'Artagnan) e creme.

Silver ou smoke
: o gene inibidor é responsável pelo silver (prata) nos tabbies e smoke (fumado) nos sólidos. É dominante. Ou seja, para que um gatinho seja agouti silver ou não agouti smoke é necessário que um dos pais também o seja. Por outro lado, dois gatos silver/smoke, se não forem homozigóticos (par de genes igual no locus da inibição), podem dar perfeitamente gatinhos não silver/não smoke.

A cor âmbar, reconhecida há poucos anos, resulta da acção de um gene recessivo extensor, que precisa de um par de genes igual (homozigótico) para se manifestar.

Não existem nos bosques, mas convém saber que há mais cores na paleta do mundo felino:

O gene recessivo chocolate (bb = precisa do par de genes igual no “ovo” para se manifestar) transforma o preto em chocolate, enquanto o vermelho se mantém vermelho porque o chocolate não tem acção visível sobre este pigmento.

O gene recessivo canela (cinnamon) transforma o chocolate em canela, enquanto o vermelho se mantém vermelho.

Os dois genes podem ainda ser alvo da acção do mesmo gene diluição descrito em cima, sendo que o chocolate se transforma em lilás (lilac) e o canela (cinnamon) em sépia (fawn).

© Shadow Eyes
© 2011

 

Genética II: os quatros padrões e o gene piebald

Genética III: genética mendeliana e as tabelas de Punnett

Genética IV: Vermelhos, Tartarugas e o «Brown Tabby»

Genética V: snowcat, o gato branco

Genética VI: as novas cores e os códigos EMS

 
   
   
   
 
   
 
   

GATIL DE BOSQUES DA NORUEGA INSCRITO NO CLUBE PORTUGUÊS DE FELINICULTURA E NA FIFE...